Toda vez em que são noticiados casos de suicídios entre adolescentes, há uma tendência a tentar encontrar uma explicação única para esses eventos.

No ano passado, o jogo Baleia Azul e a série da Netflix 13 reasons why foram acusados de incentivar as mortes. Agora, fala-se de um aplicativo, o SimSimi – que, por causa da polêmica que gerou, não está mais disponível no Brasil.

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar claro que séries, jogos e aplicativos não têm o poder de, sozinhos, provocar essas mortes. O suicídio é um fenômeno complexo, que está associado a uma sequência de processamentos distorcidos da realidade, que culminam na ação. Suas causas são multifatoriais. Estudos mostram que, em 90% dos casos, a pessoa que se suicida tinha algum transtorno psiquiátrico.

Por trás dos pensamentos suicidas, é comum estar presente uma tríade cognitiva conhecida como três “Is”: o sofrimento se torna insuportável, impossível de ser superado e interminável.

O sofrimento é insuportável porque a pessoa tende a enxergar os problemas de sua vida maiores do que eles são. O impossível está ligado ao fato de a pessoa subdimensionar suas capacidades de enfrentar as dificuldades. E o insuportável se manifesta porque a pessoa tem a sensação de que o seu sofrimento nunca vai acabar. Esta é a pior das distorções, pois o indivíduo não consegue enxergar uma das grandes certezas que temos: tudo passa.

Quem comete suicídio não quer morrer, mas sim renascer, escapando da situação vivida sob os três “Is”.Uma tentativa de suicídio é, por isso, um pedido de ajuda.

Uma forma de enfrentar o problema do suicídio, tanto para os jovens que o cogitam, quanto para os que perderam amigos assim, é falar sobre o tema. O jovem se sente acolhido quando percebe que ele tem espaço para falar o que sente. Muitas vezes, ele tem dificuldade de exprimir as próprias emoções em situações tão extremas, o que pode se dar por medo ou vergonha, mas pais, demais familiares e educadores devem deixar claro que o canal de comunicação está sempre aberto.

Outra forma de prevenção é ensinar as crianças e os adolescentes a enfrentar os pensamentos distorcidos que estruturam os três “Is”. Isso permite encontrar formas alternativas, mais realistas, de avaliar o que estamos vivendo. Essa capacidade faz parte de uma grande competência que chamamos de flexibilização cognitiva e é um dos pilares do Programa Semente.

Celso Lopes de Souza é médico psiquiatra, professor e criador do Programa Semente.